
Passaram 15 anos para ele. Para mim passaram também. Anos em que ele fez parte das pequenas coisas. Nas idas para a escola no carro da família. Nas idas de metro para a faculdade ou para o trabalho. Nas viagens antes de dormir. Na banda sonora dos meus passos pelos passeios da rua. No ritmo da cidade. No relvado da Gulbenkian ou na praia do Estoril. Primeiro foi da minha mãe, depois meu. Agora é das duas. É de tantos.
Foi em estado livre que se apresentou ao desaparecer do sol, junto do rio. Foi naquela torre de babel que renovei os meus votos. Voltei à infância onde a batida imperial da valsa fazia rodar a minha saia. A minha valsa. A valsa dos dois. Um- dois- três... um-dois-três. O rosto do meu par já não é o mesmo. Nem o corpo. Nem o olhar. Eu também já não sou a mesma. Mas começam a soar os primeiros acordes e ouve-se a voz e ai percebo que o tempo não o mudou, foi ele que mudou o tempo. O tempo foi impedido de continuar. Visto o disfarce do rio e finjo que não são lágrimas o que deixo cair. Nunca senti de forma tão profunda o desejo de infelicidade. É de tristeza que se vestem as poucas estrelas decadentes que têm a coragem de voltar ao que já foram. Ele não. Ele não é uma imitação de si próprio. É uma constelação que vive pelo puro prazer de respirar. De ser. E de ainda sentir.
Obrigada pela entrada hostil. Foi de tirar o chapéu, meu amigo.
"And I'll dance with you in Vienna
I'll be wearing a river's disguise
The hyacinth wild on my shoulder,
My mouth on the dew of your thighs
And I'll bury my soul in a scrapbook,
With the photographs there, and the moss
And I'll yield to the flood of your beauty
My cheap violin and my cross
And you'll carry me down on your dancing
To the pools that you lift on your wrist
Oh my love, Oh my love
Take this waltz, take this waltz
It's yours now. It's all that there is."
Leonard Cohen
Imagem: http://www.youngpoets.ca/rebels/roadsid2.jpg

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